[RESENHA] "THE LEFTOVERS" by Tom Perrota: Um livro sobre perdas e luto


Eu conheci a história de "The Leftovers" através da magnifica série da HBO de mesmo nome. A série é baseada nesse livro do grande roteirista Tom Perrota. Tendo assistido primeiro a série, era inevitável esperar duas obras muito próximas uma da outra. Contudo, são obras complementares, já que são duas experiências reflexivas muito distintas. 

Não pretendo neste texto realizar uma comparação de ambas as produções, já que há uma vontade de realizar isto em outra postagem. Logo, aqui focaremos somente na obra literária.

"The Leftovers" é uma narrativa que imergi na vida de diversos cidadãos de Mapleton, mas com destaque a família Garvey. O trauma que todos esses personagens têm em comum é chamado de "Partida Repentina", um evento acontecido há três anos, onde uma grande parcela da população simplesmente desapareceu no ar. Muitos podem chamam de arrebatamento, outros não conseguem nem definir.

Somos apresentados a família Garvey, uma família de classe média que está se destruindo. Kevin Garvey se tornou o prefeito da cidade. Laurie Garvey, cansada da futilidade do mundo, do sentimento de não pertencimento, se junta a um culto denominado "Remanescentes Culpados". Tom Garvey, o filho, se une a um homem que se autodenomina Santo Wayne, e agora viaja pelo país cuidando de uma moça, que supostamente leva em seu ventre o Salvador. Por fim, Jill Garvey, a filha, sofre com a falta da mãe e tenta seguir a vida.

Nora Durst é uma das personagens mais interessantes desta história já que toda a sua família desapareceu no dia 14 de outubro. A vida dela é um grande luto. Nora tenta sobreviver e refazer a sua vida, até que tudo vira de cabeça pra baixo, quando Kevin Garvey entra em sua vida.

Meg Abbot é uma discípula de Laurie nos Remanescentes Culpados, a relação entre elas é intensa e traz à matriarca da família Garvey aquele sentimento de amor e amizade o qual ela havia renunciado a muito tempo.

A premissa deste livro é espetacular desde a primeira linha. A experiência, porém, pode ser frustrante para alguns, afinal, pra quem gosta de mistério solucionados, o livro têm muito poucas respostas. Pra quem gosta de ação: Ela é quase inexistente. Pra quem gosta de narrativa lineares e com tudo muito coeso: os lapsos de tempo podem gerar estranheza. Contudo, o livro é fluído em sua narrativa. É impossível não se envolver com a trama, com as histórias, com a vontade de saber mais. O final do livro dá um gosto de "quero mais" já que termina no momento crucial da história.

A estrutura da narrativa é diferenciada, já que podemos considerar ser quase crônicas ou contos daquela situação. Eles são conectados, obviamente, porém é fácil escolher um capítulo e degustá-lo de forma avulsa. Existem capítulos incríveis de ser ler, tocantes, reflexivos.

O problema deste livro, talvez, esteja parcialmente na sua estrutura, pois muitos personagens acabam não tendo muito desenvolvimento ao longo do livro, muitas vezes desaparecendo da história. E outros personagens, apesar do destaque deles, possuem pequenas lacunas no seu desenvolvimento por conta dos lapsos de tempo.

O que seriam esses lapsos de tempo? Basicamente, uma situação é apresentada, contudo o leitor, em alguns casos, só ver as consequências daquela situação no capítulo seguinte que se passa alguns dias ou meses depois. Isso é interessante, mas algumas vezes gera estranheza e até falta de empatia por alguns personagens.

Por outro lado, a reflexão que esses capítulos, que a história em geral promove, possui uma força emocional muito intensa. Não é fácil escrever uma história sobre luto, perda e sentimento de deslocamento e isso ser fluído e ao mesmo tempo impactante. Uma personagem desse livro, que pra muitos pode não ser nada, é, talvez, uma das personagens que mais esteja próxima do real, do existente, do palpável. Aimee é uma amiga de Jill, que está passando um tempo na casa deles. Esse período de tempo permite a construção de uma amizade forte entre ela e Kevin. Quando você ver a relação que eles constroem de apoio, de cumplicidade, mesmo que com um teor sexual refreado, é bonito de ler, é interessante. A despedida dessa personagem é a mais emocionante, na minha opinião.

Essas reflexões em torno das relações humanas que envolvem perda, luto e recomeço pode ser feito com inúmeros personagens, em situações diversas. Um dos momentos mais tensos e sangrentos desse livro envolve justamente o sacrifício de algo que você ama muito. Você já parou pra pensar o quanto é difícil abrir mão de coisas materiais que são muito valiosas pra você, ainda que sejam fúteis? Agora, pense, você abriria mão de pessoas que ama com a finalidade de se encontrar? Você abriria mão de sua vida para fazer as pessoas lembrarem das perdas?

O que vale mais na sua vida? Como recomeçar uma vida, quando tudo o que você amava se esvai da sua mão?

Muitos dizem que este é um livro de recomeços, porém acredito que este é um livro de perdas constantes. Todos os personagens perdem coisas consideradas valiosas ao longo de todo o livro: fé, amor, amizade, dinheiro. Há momentos de vitórias, de recomeços, mas quando isso finalmente acontece, o livro acaba. Você nunca saberá o que aconteceu. Isso é incrível, ainda que frustrante.

A experiência que eu tive com esse livro se resume a refletir sobre as nossas relações com mundo, com as pessoas, com as coisas. Verificar o quanto podemos estar quebrados e sem vida, presos a inverdades. Além de perceber o peso e a dificuldade de tomar decisões na vida. Se possível, faça um favor a sua alma e leia "The Leftovers".   

Por Jônatas Amaral

A Queda da Antiga Nárnia


Tudo está desmoronando a cada segundo sem mostrar o que será construído no lugar do que antes existia. Sinto que estou caçando no escuro um novo lugar para viver, um lugar que seja só e exclusivamente meu. Um lugar seguro, mas sem maldade, mentiras ou orgulho.

É intrigante como nos apegamos aos lugares que construímos, ainda que estes sejam construídos com as piores matérias primas. É um sentimento de ter construído algo com suas mãos, mas de forma frágil e sem cuidado.

Existem tantas Nárnias para se ir, mas não tenho os mapas certos para chegar até elas. Os mapas estão confusos, sem chaves ou legendas.

Olho para estantes. Releio as histórias e escuto os sons em busca do lugar certo para estar. Muitos dizem que o caminho é certeiro, que não tem como errar. Certezas demais em um mundo incerto.

Peço ajuda, mas não me encontro. Talvez essa seja uma jornada solitária com alguns encontros importantes ao longo da estrada.

A minha antiga Nárnia era feita de gelo e dominada por uma carinhosa, mas cruel Rainha Branca. Pedro, Suzana, Lúcia e Edmundo, com a ajuda de Aslan, a destruíram. Junto com eles voltei ao mundo real e agora vivo no impasse de querer voltar à antiga Nárnia, por ser um local conhecido, ou continuar a caçar uma nova entrada entre os poços, a fim de encontrar um novo local para fincar um novo pilar para um novo castelo. Uma nova morada.

Diga a todos os reis de todas as terras que a antiga Nárnia não existe mais.


Por Jônatas Amaral

DIA DO ESTUDANTE AMAZON