[RESENHA] "O Clube do Filme" de David Gilmour



“Você precisa saber como a coisa termina antes de poder apreciar sua beleza desde o inicio” (pag. 50)

Ao chegar ao fim deste livro voltei às primeiras linhas do relado David Gimour. E a frase acima se torna um trecho característico e verdadeiro. Quando nos deparamos com o final provável ou não, percebemos a beleza de toda a trajetória de um pai e um filho com algumas horas de cinema e conversas.

Fiz questão de escrever esta resenha ao som das trilhas sonoras do cinema, as mais clássicas. Dar som a esta resenha de um livro que não trata só sobre cinema, mas tem nele um mote principal.


O Clube do filme tem seu inicio quando David sugere ao filho Jesse de 15 anos, que vai de mal a pior no colégio e vive esse drama, a justamente sair da escola se ele quiser, mas com algumas condições: ele não pode se envolver de nenhuma forma com drogas e vai ter que assistir a três filmes com o pai toda a semana, seria a única forma de educação que ele receberia.

Jesse levanta excitadíssimo da mesa e aceita na hora. E assim começa um relato real, sensível, da relação entre um pai e um filho com seus problemas característicos da idade de cada um. Relato de uma relação construída com o tempo, uma relação de amizade, confiança, por vezes de medo.

Podemos questionar o pai: “Você é maluco! Tirar menino da escola! Dá a ele uma vida de preguiça total”. Tudo bem, não vou dizer que faria com meu filho. Não vejo esta como a saída mais propicia e mais inteligente, porém para esta família funcionou. Talvez, não funcione na minha, na sua, nem que seja aconselhável, porém foi a saída que este pai viu para que pudesse oferecer à seu filho ensinamentos preciosos, acredite, vejo que Jesse aprendeu muito mais sobre a vida, adquiriu muitos conhecimentos de muitas outras coisas, que talvez jamais tivesse posto os olhos no colégio.

“Indicar filmes às pessoas é um negócio arriscado. De certa forma, é algo tão revelador quanto escrever uma carta para alguém. Mostra como você pensa, aquilo que o motiva, e algumas vezes pode mostrar como você acha que o mundo o enxerga”. (pag. 187-188)

Os filmes são a forma que David viu de educar seu filho, escolheu os filmes a dedo justamente para oferecer um debate ou fazer Jesse entender terminada situação. Ao longo da história nos são colocados diversas informações sobre obras primas do cinema, sobre fracassos do cinema. Sobre atores, a vida de diretores. São comentados pela voz de um pai critico de cinema e comentados por uma jovem boca sem tanto conhecimento, mas extremamente sincera.


Podemos perceber que o grande momento deste livro é justamente o crescimento de um jovem que não fez as melhores escolhas, mas com a ajuda de um amigo um tanto incomum, seu pai, conseguiu aprender com esses erros. Os momentos, por vezes, tediosos ao lado pai, fizeram este garoto imaturo traçar uma linha de vida, não perfeita, mas tão bonita quanto.
“- acha que estou sendo infantil, por conversar com meu pai sobre isso? Não posso falar com meus amigos. Eles só dizem coisas estúpidas. Não fazem de propósito, mas tenho medo de que digam algo que vá realmente me magoar, você entende?” (pag. 196)
O grande drama de Jesse são as mulheres, percebamos, ele tem 15 anos e sofre por isso. Haverá aquelas mentes que verão nisso algo estúpido, exagerado, mas se observamos é muito verossímil com a realidade, ele amou aquelas garotas e elas destroçaram o coração dele. É ver por outro ângulo, isso no livro pode irritar, mas é tentar ver pelos olhos de Jesse. Se fossemos ele? Talvez, não tivéssemos a reação dele, mas não somos igual a ninguém.

David é um pai com problemas também, ele não é perfeito. Não é o melhor pai do mundo, e ele mesmo reconhece isso, porém o que ele oferece a seu filho é bom ao extremo. Você percebe o quanto esses dois homens tiveram que enfrentar, você começa entender o quanto difícil é ser pai. David por vezes mata sua própria opinião para fazer feliz o seu filho. 


É preciso ser dito, essa foi a relação entre pai e filho mais sincera e nua que já li na literatura e por ser um relato real, torna ela ainda mais bela.

Para os amantes de cinema será um prato cheio de informações sobre cinema. A relação com os filmes é intensa, chegamos até curiosidades impressionantes, histórias inesperadas, alguns spoilers, preparem-se; você verdadeiramente quer ir a locadora, à internet, à estante ver o filme sobre o qual você acabou de ler, até os filmes mais horríveis você quer ver, tal são a emoção e conhecimento marcado no livro.

O livro possui algumas falhas na construção da narrativa. Alguns capítulos deixam pontos soltos de uma forma que deixa uma dúvida no leitor, o que ele quis dizer com o isso? Isto é legal em alguns capítulos, pois isso instiga o pensamento e a curiosidade, mas em outros parece que faltou algo ali. Isso faz a trama não ser extremamente linear, não ocorre dia após dia, às vezes você dá longos saltos no tempo de um capitulo para outro. 

Ou seja, o livro narra 3 anos em 230 páginas. Ele busca narra os principais momentos desses três anos. O foco esta todo na relação de David e Jesse. Os relacionamentos de Jesse são bem explorados, você acaba entendendo como são essas meninas. Talvez tenha faltado um pouquinho de equilíbrio mais preciso entre justamente quando ele trata do filme como filme e quando ele trata do filme como auxiliar a educação. Por vezes um se sobrepõe ao outro e isso para a história não é interessante. O autor, porém, consegue transmiti ao leitor a relação intima da relação pai/filho e pai/filho/filmes. Isso é ótimo.

GILMOUR, David. O Clube do filme
Editora Intrínseca. Rio de Janeiro, 2009. Pag.240
É uma leitura que flui delicadamente, você até pensa como seria uma adaptação cinematográfica desse filme. Uma linguagem que todos conseguem entender. Se você nunca assistiu aos filmes citados, não se preocupe você pode até ama-los até antes de tê-los assistido.

É um livro que me surpreendeu. Foi uma leitura que veio no momento certo. E indico muito a todos aqueles que quiserem se aventurar por uma história que tem muito de cinema, muito de educação, muito de escolhas erradas, muitos imperfeições, mas da mesma forma muito de crescimento.

“Que educar filhos era uma sequência de despedidas, um adeus após outro – às fraldas, aos agasalhos de neve, depois às próprias crianças. ‘eles passam a vida partindo’, eu falei, e Cronenberg, que também tem filhos adultos, me interrompeu: ‘Sim, mas será que eles realmente partem?” (pag. 225)
Por Jônatas Amaral 

Jônatas Amaral

Sou Jônatas Amaral, 22 anos. Paraense, Brasileiro. Formado em Letras - Língua Portuguesa. Um sonhador por natureza.

8 comentários:

  1. Eu havia tentando ler esse livro uma vez, mas acabei abandonando. Tô pensando em tentar de novo, talvez dessa vez consiga terminá-lo.
    http://tudoqueeuli.blogspot.com

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    1. Olá Érica!
      É um livro que acho que vale muito a pena terminar.

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  2. OI!
    Vim conhecer seu blog e me deparei com essa resenha super bem escrita! parabéns!
    Não conhecia esse livro, mas fiquei com vontade de ler e saber o final... rs
    O garoto nunca mais volta para escola?
    Livros, cinema e relação de pai e filho só pode dar em um história boa e profunda!
    Seguindo aqui!! :)
    Bjs, Lu
    http://resenhasdalu.blogspot.com.br/

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    1. Olá Luiza.
      Obrigado, Thanks vey much!
      Vale muito a pena chegar ao final e poder conferir e concluir um bom questionamento. E fazer uma boa discussão sobre o assunto.

      Até mais!
      Volte sempre!


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  3. Olá!

    Eu já tinha ouvido essa história e tinha achado um absurdo! Mas lendo a sua resenha, percebi que essa história é um desafio que poucos conseguiriam cumprir.

    resenhaeoutrascoisas.blogspot.com

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    1. Olá Kamila.

      Verdadeiramente é um pouco estranho ler a sinopse, mas acredite vale muito a pena conferir e tentar entender. No final não é tão absurdo se formos pensar bem.

      Obrigado pela visita!
      Volte Sempre!

      Jônatas Amaral
      alma-critica.blogspot.com.br

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  4. Oi, acabei de ler o livro. Sofri para ter coragem de ler até o fim. Criei um vínculo com ele, e não aceitava a despedida. Meus olhos se enchem de lágrimas ao pensar nessa relação. Acho que sou muito emotiva mesmo. Compartilho o seu pensamento sobre essa ser relação pai e filho mais sincera e nua que já li na literatura.
    Tive a mesma percepção sobre as falhas na construção da narrativa, os pontos soltos.. Em alguns momentos me questionei se havia pulado alguma parte, haha.
    Excelente resenha. Parabéns!!

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