[RESENHA] "MULHER MARAVILHA" (Wonder Woman, 2017)



Eu acompanhei durante todo esse tempo a preparação para o filme solo da Mulher Maravilha: desde seu anúncio, escalação de elenco, divulgação dos posteres, exatamente tudo, inclusive a confusão que foi os possíveis comentários internos ao estúdio de que o filme estava uma bagunça generalizada. Diante de tudo o que li é possível pensar que se em algum momento houve uma confusão no processo de preparação deste filme ele foi solucionado totalmente na edição final.

De fato, "Mulher Maravilha" perde o charme diferenciado no seu ato final, mas tudo o que você sente ao terminar de ver o filme é satisfação. É um filme empolgante na dosagem certa. É um filme que, inclusive, te oferece espaço para curtir com o amigo do lado, de dá uns beijos no parceiro(a), fazer um comentário, existe tempo para isso. São 2h30 de filme que te divertem e te empolgam a querer mais e mais da personagem principal. É um excelente filme de origem.


Algo que me incomoda profundamente nos filmes da Marvel, por exemplo, é a sua limitação no roteiro de ter que se encaixar dentro do universo amplo de filmes, fazendo com que os filmes de origem e as sequências sejam mais um prelúdio para outro filme. Eu só não sentir isto, recentemente, em "Guardiões da Galáxia vol. 2". Eu tinha medo de que este filme da Mulher Maravilha sofresse por conta de, também, está fazendo parte da construção da base para formação da Liga da Justiça no cinema, mas, para meu alívio, ele é desgarrado das amarras, linkado de forma simples e sutil, nada forçado. Apresenta a personagem, constrói um arco dramático, oferece um vilão e fecha sua história e #partiu Liga da Justiça. É um filme de herói que tem um fim, ao mesmo tempo que deixa aberto o caminho para dali para frente, sem precisar de um gancho megalomaníaco.

O filme possui três tons muito bem delimitados. Inicialmente, temos um ambiente que beira o lúdico, o majestoso, típico de filmes sobre mitologia. É elegante, rústico, selvagem. O segundo momento é algo que flerta mais com o humor ingênuo da personagem em um ambiente tão hostil e violento em plena segunda guerra mundial. O terceiro momento é o ar de cataclismo total já bem comum nos últimos filmes da DC. Os dois primeiros são bem construídos, possuem, inclusive, uma estética que dá personalidade ao filme. A câmera lenta é algo que funciona em alguns momentos. O terceiro momento me incomoda por ser o menos original de todos, ainda que seja realmente bem empolgante.

O Chris Paine me surpreendeu grandemente no filme pela sua verdade e presença em todas as cenas, nos fazendo gostar dele desde o primeiro momento até seu derradeiro momento. A Gal Gadot, além de linda, mostra que foi a escolha perfeita para essa nova versão da personagem nos cinemas. Ela têm um presença poderosa em cena, ainda que careça de alguns recursos cênicos como atriz. 


E, por fim, o vilão do filme é realmente algo a se destacar. É um daqueles vilões ambíguos em suas motivações, pois aquilo que ele devia representar e as suas atitudes não são coerentes, contudo essa dualidade estranha torna ele ameaçador e realmente alguém que consegue antagonizar de forma incisiva a heróina, mexendo com os pontos fracos dela.

Quando tudo acaba, fica o sentimento de satisfação, de empoderamento. A figura da Mulher Maravilha representa muito esse sentimento de força, de determinação e vontade de fazer o que quiser, ainda que o mundo diga que você não consegue. E tudo isso está contido neste filme tão forte e divertido. Vá ao cinema assistir e aproveite! 



Por Jônatas Amaral


EQUALS (2015) : E se você não pudesse ter sentimentos? Você arriscaria tudo para sentir algo?


Você já pensou na possibilidade de não poder reagir emocionalmente as coisas a sua volta? Não poder ter qualquer contato físico com ninguém? Ser cético em cada parte do seu dia? Não sentir prazer ao ver algo, ao ouvir algo? Já pensou se não tivéssemos emoções? 

Todas as vezes que me deparo com tais perguntas, penso: Sem todas essas coisas poderíamos ser considerados humanos?

Equals ou Quando eu conheci você (no Brasil) se passa em um universo futurista onde a sociedade não pode ter ou sentir emoções. Sentimentos são considerados uma anomalia médica do seu humano. As pessoas que são diagnosticas com SOS (termo utilizado para descrever a doença) passam por um tratamento a base de remédios que ajuda na repressão dos sintomas. Não existe até então uma cura para tal doença e há quem acredite que ela possa ser contagiosa ou não.

Silas (Nicholas Hoult) começa a sentir determinados sintomas, sendo posteriormente diagnóstico no estágio 1 da doença. Considerando determinados aspectos e sintomas este percebe que sua colega de trabalho Nia (Kristen Stewart) sofre do mesmo "mal". O contato, o olhar, a descoberta de si mesmo leva estas duas almas a um amor que flui de forma desesperada de sua mente, corpo e alma. Um perigo iminente se instaura, afinal, se forem pegos serão levados ao DEN, onde receberão uma sentença de morte.

A construção da ambientação desta trama é um dos pontos mais fortes e que contribui veementemente para uma sensação absurda de angustia e repressão que roteiro quer passar. 

O filme se inicia de uma forma muito silenciosa e cética, com alguns ruídos, frio, chato até, mas de forma intencional já que você passa a ser introduzido naquele ambiente e muito disso permanece ao longo de todo o filme. Conforme Silas começa à  experimentar novas emoções e sensações o filme, até então muito branco e cinza, ganha cores calmas e vibrantes. Em duas cenas as cores são fundamentais para mostrar o nascimento e a repressão de sentimentos. O tom esfumaçado e desfocado de algumas cenas ajuda o espectador ver e quase tocar nas emoções que vão surgindo aos poucos nos personagens. 

Exemplo do uso de cores
O filme ganha fôlego ao se aproximar do final com uma sequência que nos deixa cheios de expectativa. Ainda que alguns acontecimentos sejam previsíveis, a situação em si é intrigante e gera expectativa, afinal você não entende como aquela situação poderá ter um final feliz.

O ambiente do filme gera um desconforto do inicio ao fim no espectador. De forma pessoal, uma das cenas de Kristen Stewart conseguiu inserir uma dor emocional tão grande em mim que precisei de um tempinho para conseguir retornar ao filme. Não é um filme de atores, é um filme de roteiro acima de tudo, um filme para sentir. Posso imaginar que viver sem emoções é um pouco do que foi mostrado em tela e, absolutamente,  não é bom, não trás felicidade.

É um filme reflexivo em muitos aspectos, principalmente no que tange a repressão de sentimentos que pode ser entendido em diversos âmbitos, já que qualquer forma de contato é visto como prejudicial. Hoje a nossa sociedade condena à morte, as vezes, determinados relacionamentos. Julga amizades como inapropriadas só pelo fato dos erros anteriores; julga as pessoas como anormais ou não dignas de sentimentos por conta do estado emocional, psicológico, clínico. Somos um ser que vive em sociedade, que se desenvolve em sociedade, porque mutilamos a nós mesmos e as pessoas? Qual o motivo de não construirmos laços de amizades profundas? Por que a superficialidade é super estimada? Por que não sentir o que sentimos?

Muitas de nossas lutas internas são prisões coordenadas por fatores externos que consideramos serem nossos em algum momento da vida e que de repente você não sabe mais onde você começa e onde voce termina. Você não sabe o que quer ou o que quer sentir, mesmo que quer sentir.


Se eu não tivesse sentimentos, o que seria de mim? Eu sou feito de sentimentos. Você é feito de emoções. Não deixemos que a maldade e ganância do homem tire de nós uma das caracteristicas mais vitais para nos chamar de seres humanos.

Equals é um romance distópico que têm muito a nos fazer refletir sobre as nossas relações e sobre a forma que encaramos os nossos sentimentos. 


Disponível na Netflix

Por Jônatas Amaral

AS LEMBRANÇAS QUE GUARDO SOBRE "GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2"...


Dia de cinema é sempre bem divertido para mim e sempre vou ter algo para contar sobre uma sessão, sobre a ida ao cinema, a compra de ingressos ou sobre o filme mesmo. Posso dizer que ir ao cinema assistir "Guardiões da Galáxia vol. 2" foi um dos dias de cinema mais divertidos da minha vida. 

Guardiões da galáxia (vol. 01) é o meu filme favorito da Marvel sem dúvida alguma. De todos os filmes da poderosa indústria este é o mais divertido, mais criativo, visualmente mais distinto. A trilha sonora é perfeita. Era óbvio que uma sequência ia ser produzida diante do sucesso estrondoso da equipe nos cinemas, pouco conhecida do grande público até então.

A ligação com o mega Universo Marvel nos cinemas tornava aquele filme ainda mais importante, contudo seria possível fazer algo tão bom quanto o primeiro na sequência? Tão bom quanto talvez não seja, mas chega muito perto.

Esse filme tem excelentes sequências e um excelente desenvolvimento de personagens. Sinto dizer que não lembro muito da história como um todo, mas lembro de momentos e de sensações. A cena final é inesquecível para mim. Eu não imaginei aquilo e me emocionar não foi surpresa. Lembro com clareza da "incredulidade" no rosto daquele que me acompanhava ao ver as lágrimas caindo do meu rosto, mas eram lágrimas de emoção. O cinema faz isso com a gente: nos comove com pequenas coisas.

Se você espera uma crítica de cinema sobre o filme, não é essa a questão aqui. Este post é para dizer que o cinema é entretenimento acima de qualquer coisa. Quando um filme consegue unir histórias, ser revelador de momentos, ser um acompanhante ou pretexto para contar outras histórias, a magia do que é o cinema ganha outro aspecto.

Nesse dia choveu muito em Belém. Teve uma batida leve de carro enquanto eu estava indo para a sessão. Conheci pela primeira vez como funcionava o estacionamento de um shopping. Conheci pela primeira vez alguém que viria ser, em pouco tempo, muito importante na minha história, ainda que talvez a pessoa não acredite. A frase "I am Groot" ganhou outro significado para mim. Nunca um "até logo" foi tão belo. Eu lembro desse dia com carinho ainda que eu tenha exitado muito a escrever sobre ele, até agora não entendo o porquê.

Tudo isso aconteceu indo ao cinema, na sala de cinema, na fila da pipoca, na saída do cinema. E ainda dizem que o lugar "cinema" vai morrer um dia. O cinema talvez mude, mas nada, absolutamente nada vai conseguir mudar a beleza e a magia dessas salas. Só não sente quem não quer. Eu vou ao cinema, acima de tudo, para ter lembranças. Quantas lembranças essa galáxia inteira desenhada na tela me concedeu!

Eu não lembro da história como um todo. Eu lembro de sequências. Eu não lembro de tudo, mas lembro de palavras, lembro do que sentir. E isso valeu o ingresso. 


Dedicado à quem eu disse "I am groot".

Por Jônatas Amaral

  

[RESENHA] "THE LEFTOVERS" by Tom Perrota: Um livro sobre perdas e luto


Eu conheci a história de "The Leftovers" através da magnifica série da HBO de mesmo nome. A série é baseada nesse livro do grande roteirista Tom Perrota. Tendo assistido primeiro a série, era inevitável esperar duas obras muito próximas uma da outra. Contudo, são obras complementares, já que são duas experiências reflexivas muito distintas. 

Não pretendo neste texto realizar uma comparação de ambas as produções, já que há uma vontade de realizar isto em outra postagem. Logo, aqui focaremos somente na obra literária.

"The Leftovers" é uma narrativa que imergi na vida de diversos cidadãos de Mapleton, mas com destaque a família Garvey. O trauma que todos esses personagens têm em comum é chamado de "Partida Repentina", um evento acontecido há três anos, onde uma grande parcela da população simplesmente desapareceu no ar. Muitos podem chamam de arrebatamento, outros não conseguem nem definir.

Somos apresentados a família Garvey, uma família de classe média que está se destruindo. Kevin Garvey se tornou o prefeito da cidade. Laurie Garvey, cansada da futilidade do mundo, do sentimento de não pertencimento, se junta a um culto denominado "Remanescentes Culpados". Tom Garvey, o filho, se une a um homem que se autodenomina Santo Wayne, e agora viaja pelo país cuidando de uma moça, que supostamente leva em seu ventre o Salvador. Por fim, Jill Garvey, a filha, sofre com a falta da mãe e tenta seguir a vida.

Nora Durst é uma das personagens mais interessantes desta história já que toda a sua família desapareceu no dia 14 de outubro. A vida dela é um grande luto. Nora tenta sobreviver e refazer a sua vida, até que tudo vira de cabeça pra baixo, quando Kevin Garvey entra em sua vida.

Meg Abbot é uma discípula de Laurie nos Remanescentes Culpados, a relação entre elas é intensa e traz à matriarca da família Garvey aquele sentimento de amor e amizade o qual ela havia renunciado a muito tempo.

A premissa deste livro é espetacular desde a primeira linha. A experiência, porém, pode ser frustrante para alguns, afinal, pra quem gosta de mistério solucionados, o livro têm muito poucas respostas. Pra quem gosta de ação: Ela é quase inexistente. Pra quem gosta de narrativa lineares e com tudo muito coeso: os lapsos de tempo podem gerar estranheza. Contudo, o livro é fluído em sua narrativa. É impossível não se envolver com a trama, com as histórias, com a vontade de saber mais. O final do livro dá um gosto de "quero mais" já que termina no momento crucial da história.

A estrutura da narrativa é diferenciada, já que podemos considerar ser quase crônicas ou contos daquela situação. Eles são conectados, obviamente, porém é fácil escolher um capítulo e degustá-lo de forma avulsa. Existem capítulos incríveis de ser ler, tocantes, reflexivos.

O problema deste livro, talvez, esteja parcialmente na sua estrutura, pois muitos personagens acabam não tendo muito desenvolvimento ao longo do livro, muitas vezes desaparecendo da história. E outros personagens, apesar do destaque deles, possuem pequenas lacunas no seu desenvolvimento por conta dos lapsos de tempo.

O que seriam esses lapsos de tempo? Basicamente, uma situação é apresentada, contudo o leitor, em alguns casos, só ver as consequências daquela situação no capítulo seguinte que se passa alguns dias ou meses depois. Isso é interessante, mas algumas vezes gera estranheza e até falta de empatia por alguns personagens.

Por outro lado, a reflexão que esses capítulos, que a história em geral promove, possui uma força emocional muito intensa. Não é fácil escrever uma história sobre luto, perda e sentimento de deslocamento e isso ser fluído e ao mesmo tempo impactante. Uma personagem desse livro, que pra muitos pode não ser nada, é, talvez, uma das personagens que mais esteja próxima do real, do existente, do palpável. Aimee é uma amiga de Jill, que está passando um tempo na casa deles. Esse período de tempo permite a construção de uma amizade forte entre ela e Kevin. Quando você ver a relação que eles constroem de apoio, de cumplicidade, mesmo que com um teor sexual refreado, é bonito de ler, é interessante. A despedida dessa personagem é a mais emocionante, na minha opinião.

Essas reflexões em torno das relações humanas que envolvem perda, luto e recomeço pode ser feito com inúmeros personagens, em situações diversas. Um dos momentos mais tensos e sangrentos desse livro envolve justamente o sacrifício de algo que você ama muito. Você já parou pra pensar o quanto é difícil abrir mão de coisas materiais que são muito valiosas pra você, ainda que sejam fúteis? Agora, pense, você abriria mão de pessoas que ama com a finalidade de se encontrar? Você abriria mão de sua vida para fazer as pessoas lembrarem das perdas?

O que vale mais na sua vida? Como recomeçar uma vida, quando tudo o que você amava se esvai da sua mão?

Muitos dizem que este é um livro de recomeços, porém acredito que este é um livro de perdas constantes. Todos os personagens perdem coisas consideradas valiosas ao longo de todo o livro: fé, amor, amizade, dinheiro. Há momentos de vitórias, de recomeços, mas quando isso finalmente acontece, o livro acaba. Você nunca saberá o que aconteceu. Isso é incrível, ainda que frustrante.

A experiência que eu tive com esse livro se resume a refletir sobre as nossas relações com mundo, com as pessoas, com as coisas. Verificar o quanto podemos estar quebrados e sem vida, presos a inverdades. Além de perceber o peso e a dificuldade de tomar decisões na vida. Se possível, faça um favor a sua alma e leia "The Leftovers".   

Por Jônatas Amaral

A Queda da Antiga Nárnia


Tudo está desmoronando a cada segundo sem mostrar o que será construído no lugar do que antes existia. Sinto que estou caçando no escuro um novo lugar para viver, um lugar que seja só e exclusivamente meu. Um lugar seguro, mas sem maldade, mentiras ou orgulho.

É intrigante como nos apegamos aos lugares que construímos, ainda que estes sejam construídos com as piores matérias primas. É um sentimento de ter construído algo com suas mãos, mas de forma frágil e sem cuidado.

Existem tantas Nárnias para se ir, mas não tenho os mapas certos para chegar até elas. Os mapas estão confusos, sem chaves ou legendas.

Olho para estantes. Releio as histórias e escuto os sons em busca do lugar certo para estar. Muitos dizem que o caminho é certeiro, que não tem como errar. Certezas demais em um mundo incerto.

Peço ajuda, mas não me encontro. Talvez essa seja uma jornada solitária com alguns encontros importantes ao longo da estrada.

A minha antiga Nárnia era feita de gelo e dominada por uma carinhosa, mas cruel Rainha Branca. Pedro, Suzana, Lúcia e Edmundo, com a ajuda de Aslan, a destruíram. Junto com eles voltei ao mundo real e agora vivo no impasse de querer voltar à antiga Nárnia, por ser um local conhecido, ou continuar a caçar uma nova entrada entre os poços, a fim de encontrar um novo local para fincar um novo pilar para um novo castelo. Uma nova morada.

Diga a todos os reis de todas as terras que a antiga Nárnia não existe mais.


Por Jônatas Amaral